Preparação Individualizada da Medicação: Quais as vantagens?

A preparação individualizada de medicação (PIM) é um serviço prestado nas farmácias, que promove a segurança e eficácia na gestão da terapêutica, permitindo diminuir erros humanos e melhorar a adesão.

Em entrevista à Follow Pharma School, Miguel Ribeiro, farmacêutico e CEO da Farmácia Central de Borba, explica melhor os benefícios e o impacto deste serviço, que implementou há cerca de ano e meio.

Quais as principais mais-valias da PIM?

Todo o processo de administração da medicação é facilitado. Dúvidas por parte dos utentes como “Será que já tomei o comprimido? É mesmo este? Será a esta hora?” desvanecem-se, pois responsabilizamo-nos por essa parte. As pessoas só têm de se preocupar em consultar a PIM e tomar o que está indicado. No nosso caso, entregamos uma pasta, com separadores, e a indicação do dia e hora das tomas, acompanhada por texto e imagens, para ser o mais claro possível. Além disso, as caixas e os medicamentos com o mesmo princípio ativo variam entre si em termos de formatos, cores, o que pode tornar-se também um obstáculo. Com este serviço, diminuem-se os erros humanos e ultrapassam-se barreiras de iliteracia.

Em termos de conservação este método também é vantajoso, porque os fármacos ficam bem selados, e não são expostos à luz e humidade.  E, claro, promove uma adesão correta à terapêutica.

Em que medida a PIM é uma boa ferramenta para aumentar a adesão terapêutica?

Nós temos clientes particulares (doentes, cuidadores e familiares) e lares, e o feedback tem sido bastante positivo em termos de adesão à terapêutica. Nos lares, por exemplo, descomplicámos imenso o trabalho de auxiliares e enfermeiros, que só têm de se preocupar em seguir as nossas indicações. E, enquanto farmacêuticos, somos as pessoas mais indicadas para o fazer. Isto porque, ao prepararmos uma PIM, especialmente quando há mudanças de medicação ou prescrições de vários especialistas, podemos deparar-nos com interações medicamentosas ou detetar alguma outra situação e entramos em contacto com o médico, para confirmar se está tudo correto ou se houve algum lapso. No fundo, quem faz a consolidação de toda a medicação somos nós – não se trata apenas de prepará-la, mas também de fazer a sua revisão.

A que pessoas se dirige a PIM?

Na minha opinião, a qualquer pessoa. Claro que a população idosa, pela maior probabilidade de comorbilidades e, consequentemente, de polimedicação, bem como de obstáculos cognitivos, de compreensão, e outros, será aquela que mais beneficiará com este serviço. E nunca esquecer os cuidadores e as instituições. No nosso caso, além de particulares, trabalhamos com três lares, um total de cerca de 200 utentes.

Contudo, na verdade, qualquer pessoa que não queira estar a preocupar-se com tomas pode gerir a sua terapêutica de forma mais tranquila através deste método. Até uma pessoa jovem, mas com uma vida muito ativa, pode não se lembrar se já tomou a medicação de que precisa.

Por que motivo nem todas as farmácias têm este serviço disponível?

Há vários motivos. Em primeiro lugar, para se compreender a resposta a essa questão, tem de se entender todo o processo necessário a uma implementação, que requer recursos humanos. Pode até ser um técnico de farmácia a tratar da PIM, mas tem de ser sempre supervisionado por um farmacêutico. O que levanta também questões de custo-benefício. Na Farmácia Central de Borba temos uma pessoa dedicada a PIM praticamente a tempo inteiro e outra a tempo parcial.

Por outro lado, em termos logísticos também há a necessidade de espaço. E ainda mais para quem recorre à utilização de máquinas que existem para facilitar a tarefa, tornando-a mais automatizada. Estas implicam um grande investimento financeiro e, depois de testarmos essa hipótese à consignação, não considerámos que justificassem o valor, no nosso caso. Porém, para quem tenha muitas centenas ou milhares de utentes pode ser vantajoso. Tem de se ter em conta a rentabilidade. Se der prejuízo, não faz sentido.

O que diria a colegas de outras farmácias? Vale a pena apostarem na PIM?

Requer algum planeamento, é importante ter uma OPL (one point lesson), procedimentos padronizados, tanto na PIM como em quase tudo neste negócio. Aqui apostamos imenso em serviços, porque é a mais-valia mais importante que uma farmácia pode ter atualmente, uma forma de aproveitar e de rentabilizar os profissionais. Ninguém sabe mais de medicamentos do que um farmacêutico. Implementámos a PIM com o intuito de estimular o papel da farmácia enquanto instituição proativa na sociedade, e temos muitos outros serviços disponíveis. Acredito que vale a pena apostar na PIM.

Que outros serviços estão disponíveis na sua farmácia?

Além da medição de parâmetros analíticos como o colesterol ou a glicemia, presente na maioria das farmácias, implementámos também a medição do PCR, do PSA, do sangue capilar e de um perfil lipídico mais completo. Temos também disponíveis a administração de injetáveis, consultas de enfermagem e nutrição.

Um serviço que destaco sempre, embora não remunerado, é o aconselhamento farmacêutico feito ao balcão. Há muitas coisas que as pessoas não perguntam ao médico na consulta, por vezes, até por vergonha, e que nos colocam a nós.

Infelizmente, ainda não disponibilizamos o acompanhamento farmacoterapêutico. Trata-se de consultas complementares ao serviço prestado pelo médico de família, com o qual entraríamos em contacto caso necessário. Para a sua implementação, é necessária uma pessoa especializada e que se dedique a isso em exclusivo. É algo que almejo ter no futuro, pois considero-o o ex-líbris do serviço farmacêutico.

Além da PIM, que estratégias considera importantes para aumentar a adesão terapêutica?

Na minha perspetiva, o mais importante é despender algum tempo a educar as pessoas. Certificar-nos de que o utente sabe o que está a tomar e com que finalidade, pois se realmente o compreender, facilitará o processo. Procuramos fazer isto ao balcão. O serviço de acompanhamento farmacoterapêutico que referi anteriormente seria o ideal para tal, mas a PIM também é uma ferramenta muito importante nesta área.

Por outro lado, envolver famílias e cuidadores é essencial para a adesão terapêutica dos doentes. A educação das pessoas vai além dos doentes.

Outro aspeto importante é a comunicação entre as farmácias e os médicos de família. Tentamos agilizar essa ligação sempre que necessário.  Aliás, uma adesão à terapêutica adequada é um trabalho em equipa, que inclui famílias, instituições, utentes e farmácias.

Entrevista por Marisa Teixeira

Novembro 2022

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