Papel dos profissionais de farmácia no apoio aos
doentes idosos

O Prof. João Gorjão Clara, especialista em Medicina Interna e em Cardiologia, com competência em Geriatria, considera que os farmacêuticos podem fazer toda a diferença nos cuidados aos doentes mais velhos, um grupo de profissionais pelo qual tem “grande admiração”. Em entrevista, comenta as particularidades destes doentes e as patologias associadas mais prevalentes, bem como a percentagem elevada de medicação inapropriada e o papel das farmácias comunitárias junto desta população. 

Atualmente, como se define o conceito de idoso?  

 Por razões económicas e administrativas, relacionadas com aspetos fora do âmbito da saúde, foram criadas balizas etárias, que são seguramente desatualizadas e artificiais. Dependendo do país, a idade de reforma encontra-se entre os 63 e os 67 anos. Porém, na realidade biológica, é difícil definir quando se é velho. Naturalmente, a partir dos 30 anos, por exemplo, vamos perdendo massa muscular, o que assinala o envelhecimento fisiológico do nosso aparelho esquelético e motor. Por outro lado, os órgãos não envelhecem todos à mesma velocidade. Na minha opinião, do ponto de vista psicológico, só se é velho quando a pessoa assume que já não é capaz de fazer algo. Enquanto formos capazes de o fazer, não somos velhos. 

Em termos mais objetivos, recordo um estudo em que participei enquanto coordenador nacional sobre a prevalência da hipertensão arterial (HTA) nos idosos. O coordenador internacional, Peter Sleight, considerou que 55 anos era a idade a partir da qual se deveria considerar velhos os participantes, por marcar uma etapa do envelhecimento cardiovascular. Eu discordei, defendendo que deveria ser pelo menos a partir dos 65 anos, até porque existem diferenças entre o doente idoso e o doente geriátrico. 

 

O que distingue o doente idoso do doente geriátrico? 

Em tempos, escrevi para o jornal European Geriatric Medicine, com o intuito de convencer os administradores hospitalares de que as unidades hospitalares de Geriatria são fundamentais. Existem em todo o mundo civilizado, exceto em Portugal e na Grécia. Nesse artigo, expliquei a destrinça entre o doente idoso e o doente geriátrico da seguinte forma: um doente com 90 anos, com uma infeção respiratória, mas em boa forma física e intelectual, deveria ser encaminhado para uma enfermaria convencional. Contudo, se tivesse comorbilidades, algum défice cognitivo ou até algum compromisso de ordem económica – que, infelizmente, muitos têm –, deveria ir para uma Unidade de Geriatria. Essa destrinça não necessita de regras ou guidelines específicas, somente bom senso. Nem todos os doentes idosos são doentes geriátricos – os geriátricos são os mais complexos, exigindo muita experiência na maneira como são tratados.  

 

Os profissionais de saúde e a sociedade em geral têm de estar mais sensibilizados para as particularidades do doente idoso? 

Claro que sim, sobretudo em Portugal. Estamos muito atrasados em relação a outros países europeus. Por exemplo, em Espanha, há unidades de Geriatria há cerca de 30 anos; e quanto a sociedades científicas dedicadas à Geriatria, em Espanha existem desde 1978 e em Inglaterra desde 1948. Portanto, nesses e noutros países, os médicos entenderam que os idosos constituíam, entre a população de doentes, um grupo muito particular. Têm doenças que lhes são próprias, uma abordagem clínica distinta, opções terapêuticas que lhes são exclusivas. O facto de estarem numa fase final da sua evolução biológica, com doenças mais prevalentes, limitações orgânicas e fisiológicas, implica uma escolha cuidada da medicação. E, muitas vezes, devido às comorbilidades, ao tratarmos uma patologia não nos podemos esquecer das restantes, para não agravar a situação.  

Com o objetivo de chamar a atenção para a importância de valorizar a população mais sénior, lancei há um ano a campanha “Os idosos são valiosos”, no YouTube. 

É fundamental valorizar os mais velhos e fazer com que não sejam apenas considerados como um peso na economia ou que não servem para nada. Nesta campanha, várias personalidades de várias áreas (Marcelo Rebelo de Sousa, Papa Francisco, Fátima Lopes, Fernando Pádua, entre outras)  partilharam frases de apoio a este conceito, que são ouvidas nos vários vídeos, pela voz de Ana Zanatti.  

Os profissionais de farmácia são muito importantes no aconselhamento e na ajuda aos médicos a tratar os doentes, especialmente idosos

Quais as doenças mais prevalentes na população idosa? 

É muito frequente no idoso a hipertensão arterial (HTA). À medida que envelhecemos, a pressão arterial sobe e, nos idosos, muitas vezes, acima dos valores considerados ideais. A diabetes tipo 2 é outra patologia que afeta largamente esta população, algumas vezes também associada à HTA. As dores nas articulações são também uma queixa comum entre os idosos, e a limitação motora que acarretam, conduzindo muitas vezes à atrofia muscular e à perda de massa muscular e sarcopenia. Outras doenças associadas ao envelhecimento relacionam-se com as alterações cognitivas, que vão de défices ligeiros a quadros de demência.    

 

A toma de medicação inapropriada entre a população idosa é uma realidade?   

Sem dúvida. A Prof.ª Maria Augusta Soares, da Faculdade de Farmácia, no âmbito da sua tese de doutoramento sobre a medicação inapropriada nos idosos, apurou – com base num inquérito a 500 farmácias – que havia uma alta prevalência de idosos a comprar medicamentos inapropriados nas farmácias. Depois disso, tivemos a oportunidade de fazer esse trabalho na consulta de Geriatria e no internamento do Serviço de Medicina Interna do Hospital Pulido Valente, onde eu era diretor, e verificámos que a percentagem de doentes medicados com medicação inapropriada era muito grande, mais de 70%. Inapropriados não significa contraindicados: quer dizer que poderíamos escolher outros com uma ação semelhante e menos prejuízo. Em muitos casos não podemos deixar de fazer medicação inapropriada, porque não há alternativa, mas sempre que possível, devemos procurar outra opção.  

 

A percentagem de idosos a tomar medicação inapropriada pode estar relacionada  com a falta de sensibilização e de Unidades de Geriatria?   

Eu lutei toda a vida pelo ensino de Geriatria em Portugal. Quando julguei que isso não seria possível, o Prof. Lobo Antunes convidou-me a regressar à Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, para lecionar a cadeira de Geriatria, criada em 2010.  Portanto, o ensino da Geriatria no nosso país é muito recente. A maior parte dos médicos que tratam idosos não fizeram qualquer tipo de formação escolar sobre o tema; se a tiveram foi porque a procuraram, inclusive no ensino pós-graduado. Essa será uma das razões que justifica o facto de muitos ainda desconhecerem o que é a medicação inapropriada. É o resultado do atraso que temos no ensino da Geriatria. 

 

Qual o papel das farmácias comunitárias no aconselhamento e na ajuda ao idoso? Como podem os profissionais de farmácia ajudar estes doentes? 

Eu tenho uma excelente relação com farmacêuticos. Dei aulas na Faculdade de Farmácia e, a pedido das associações de farmacêuticos, participei em várias reuniões com farmacêuticos ao longo da minha vida. Tenho uma excelente relação e uma grande admiração por esse grupo de profissionais. Têm um papel muito importante. Por exemplo, no interior, onde há poucos médicos e o acesso a médicos é difícil, muitas vezes, são os profissionais de farmácia que ajudam os doentes. Naturalmente que não podem resolver os grandes problemas, porque não são médicos, mas ajudam em pequenos problemas. Por exemplo, a mordedura de um bicho, em que é preciso aplicar um creme, casos de dispepsia ou obstipação, situações em que a pressão arterial estava muito alta e o doente ficou ansioso por ter medicação em casa, mas não saber como tomar, entre outras. 

Os profissionais de farmácia são muito importantes no aconselhamento e na ajuda aos médicos a tratar os doentes, especialmente os idosos, da maneira mais eficaz. Por exemplo, quando o médico prescreve um medicamento cuja posologia se vai alterando ao longo das semanas, isso é impossível de discriminar na receita eletrónica. Então, o médico deve entregar ao doente um guia terapêutico e o farmacêutico pode ajudar na sua interpretação, confirmando a prescrição para que não haja confusões.  

 

O doente idoso é “difícil” no que respeita à adesão terapêutica? 

Isso é um mito. Os idosos aderem à terapêutica com muito mais empenho do que os indivíduos de meia-idade. Para os idosos, os medicamentos representam o prolongamento da vida. Julgam que, tomando os remédios, vivem mais anos e com mais qualidade. Até acontece, de vez em quando, algo complicado: muitos idosos aceitam pior a desprescrição (diminuição da medicação), porque admitem que se tomam 14 comprimidos, ao reduzir para 6 ou 7, não estou a tratar-lhes bem da saúde. Quanto mais remédios, mais saúde; quanto menos remédios, mais doença. E isso às vezes é difícil de ultrapassar: há muitos casos em que continuam a tomar os remédios todos, o que pode representar pior qualidade de vida e menor esperança de vida. 

 

O envelhecimento saudável deve ser mais fomentado?  

O envelhecimento saudável, em Portugal, tem um grande obstáculo: as reservas económicas dos idosos, que são muito limitadas. Dizer a um idoso “faça exercício, saia de casa e ande a pé” é barato. Mas dizer-lhe que coma proteínas, que tome vitaminas, que faça a dieta mediterrânica portuguesa é mais complicado. As proteínas são caras e, muitas vezes, a pessoa não consegue alimentar-se adequadamente, porque tem de escolher entre isso ou os medicamentos. Esse é um dos problemas do envelhecimento ativo: exige alguns recursos económicos que muitos idosos não têm. Fazer exercício é o mais fácil e isso é uma questão cultural. A maioria não foi habituada a fazê-lo e é difícil começar depois da reforma um hábito que nunca tiveram. Isto aplica-se também ao exercício intelectual, que é fundamental.  

Quais os principais desafios do envelhecimento em Portugal? 

Escrevi um livro chamado Saber Viver ao Entardecer – Sugestões para Envelhecer com Qualidade, que responde a essa questão. Tem seis capítulos por ordem alfabética: 

A, de atividade intelectual 

Para envelhecer com qualidade, não se pode ir para o banco de jardim olhar para os atacadores dos sapatos; tem de se manter a atividade intelectual sempre, discutindo, conversando, escrevendo, convivendo. Manter a cabeça ativa é fundamental para se envelhecer com qualidade. 

 

B, de bom-humor 

Não podemos viver no passado. Há uma frase que considero a mais terrível no velho: “já não vale a pena”. Vale sempre a pena. Devemos aceitar que a vida tem sempre coisas boas, em todas as suas etapas. 

 

C, de cigarro 

Fumar prejudica gravemente o envelhecimento em vários órgãos, é um tóxico terrível. Deixar de fumar, em qualquer altura da vida, é uma atitude inteligente e benéfica para envelhecer com qualidade. 

 

D, de dieta 

Aprender a comer bem é importante. 

 

E, de exercício 

É essencial mexermo-nos o mais possível e exercitarmos os músculos.  

Nova associação dedicada aos idosos institucionalizados 

 O Prof. João Gorjão Clara, juntamente com outros especialistas em Medicina Interna, criou recentemente a  Associação dos Médicos dos Idosos Institucionalizados (AMIDI), com o intuito de dar formação a médicos e a outros profissionais de saúde que acompanham os idosos nas ERPI (estruturas residenciais para pessoas idosas) e de fazer com que as regras de constituição destas estruturas obriguem à contratação de um médico. 

“Em Portugal, há dezenas de milhares de idosos institucionalizados nas ERPI, antigamente designado por lares – umas clandestinas, outras não”, refere o Prof. Gorjão Clara. E adianta: “A AMIDI defende que as ERPI, assim como têm de ter um enfermeiro com formação em Geriatria, também devem ter um médico. E o número de médicos deve ser proporcional ao número de doentes idosos.”  

De acordo com o especialista, embora a AMIDI seja uma associação de médicos, “a inscrição é aberta a todos os profissionais que colaboram na assistência aos idosos institucionalizados, incluindo enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e farmacêuticos”.

//Entrevista por Marisa Teixeira

Setembro 2022

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